Quem tem TDAH tem sensibilidade sensorial?
- Aline D'Avila

- há 1 dia
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Barulho de pessoas conversando ao mesmo tempo parece impossível de ignorar. A etiqueta da roupa incomoda o dia inteiro. Luzes muito fortes geram irritação. Um ambiente cheio de estímulos provoca cansaço, dificuldade de concentração ou até vontade de sair dali.
Para algumas pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), situações assim fazem parte da rotina. Mas isso significa que quem tem TDAH necessariamente tem sensibilidade sensorial? A resposta é não.
Nem toda pessoa com TDAH apresenta sensibilidade sensorial. No entanto, alterações na maneira de perceber, organizar e responder aos estímulos podem ocorrer com maior frequência em pessoas com TDAH do que na população sem o transtorno.
O que é sensibilidade sensorial?
Durante todo o dia, nosso cérebro recebe informações por diferentes sistemas sensoriais.
Estamos constantemente processando:
sons;
luzes e informações visuais;
cheiros;
sabores;
toque e texturas;
temperatura;
movimento e equilíbrio;
posição e movimento do próprio corpo.
Grande parte dessas informações é organizada automaticamente.
Imagine trabalhar em uma cafeteria. Existem pessoas conversando, música ambiente, pratos batendo, cheiro de comida, movimento ao redor e alguém falando diretamente com você.
Seu cérebro precisa decidir: “O que é importante agora e o que posso deixar em segundo plano?”
Quando existe dificuldade nessa modulação, alguns estímulos podem ganhar intensidade demais ou de menos. É aí que podem aparecer diferentes padrões de resposta sensorial.
Como a sensibilidade sensorial pode aparecer no TDAH?
Quando pensamos em alterações sensoriais, é comum imaginar apenas uma pessoa que não suporta barulho. Mas o processamento sensorial é mais amplo.
Uma pessoa pode apresentar hipersensibilidade, reagindo intensamente a estímulos que outras pessoas tolerariam com facilidade.
Outra pode apresentar hiporresponsividade, percebendo determinados estímulos com menor intensidade. Também pode existir busca sensorial, quando a pessoa procura estímulos mais intensos ou frequentes.
Essas características podem aparecer de maneiras muito diferentes na vida cotidiana.
Sensibilidade a sons
Alguns sons podem competir intensamente pela atenção.
Por exemplo:
conversas paralelas;
pessoas mastigando;
canetas clicando;
televisão ligada ao fundo;
obras e máquinas;
buzinas;
eletrodomésticos;
notificações constantes.
Às vezes, não é necessariamente o volume que incomoda.
É a dificuldade de filtrar aquele som e colocá-lo em segundo plano enquanto se tenta prestar atenção em outra coisa. Isso pode fazer com que estudar, trabalhar ou conversar em ambientes movimentados se torne bastante cansativo.
Sensibilidade à luz e estímulos visuais
Ambientes muito iluminados, luzes piscando ou excesso de informação visual também podem gerar desconforto.
Supermercados, shoppings, festas e escritórios muito movimentados podem exigir um esforço maior para selecionar o que realmente merece atenção.
Para algumas pessoas, isso pode contribuir para cansaço, irritabilidade ou dificuldade de concentração.
Incômodo com roupas e texturas
Etiquetas, costuras, determinados tecidos ou roupas muito apertadas podem gerar um incômodo difícil de ignorar. Algo que parece pequeno para outra pessoa pode permanecer chamando atenção durante horas.
Também podem existir preferências ou aversões relacionadas a:
determinados alimentos;
consistências;
objetos;
superfícies;
contato físico.
Sensibilidade ao toque
Algumas pessoas não gostam de ser tocadas inesperadamente ou sentem desconforto maior com abraços, esbarrões ou determinados tipos de contato.
Isso não significa necessariamente rejeição à pessoa que realizou o toque.
A reação pode estar relacionada à maneira como aquele estímulo é percebido.
Busca constante por estímulos
Nem toda alteração sensorial significa evitar sensações. Pode acontecer exatamente o contrário. Algumas pessoas buscam movimento e estímulos constantemente. Podem, por exemplo:
mexer repetidamente as pernas;
girar objetos;
balançar o corpo;
mexer nas mãos;
procurar atividades físicas intensas;
tocar constantemente em objetos;
preferir música alta;
mastigar tampas de caneta ou outros objetos.
O comportamento também pode funcionar como uma forma de manter o nível de ativação necessário para permanecer atento.
Por que isso pode acontecer no TDAH?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado principalmente por padrões persistentes de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade que interferem no funcionamento da pessoa. A sensibilidade sensorial não faz parte dos critérios centrais utilizados para diagnosticar TDAH.
Ainda assim, pesquisas mostram uma associação relevante entre TDAH e formas atípicas de processamento sensorial. Uma das hipóteses é que dificuldades relacionadas à seleção e regulação das informações recebidas pelo cérebro possam contribuir para experiências de sobrecarga ou busca de estímulos.
Pense novamente em um ambiente cheio de barulho. Para uma pessoa, o som do ar-condicionado desaparece da consciência poucos minutos depois de entrar no local.
Para outra, aquele mesmo som continua presente e competindo pela atenção durante todo o tempo.
Não significa simplesmente que ela “não consegue se concentrar”. O cérebro pode estar fazendo um esforço muito maior para decidir quais estímulos ignorar.
Sensibilidade sensorial é sintoma de TDAH?
Aqui é importante fazer uma distinção. Sensibilidade sensorial pode estar presente em pessoas com TDAH, mas não é suficiente para indicar o transtorno e não constitui, isoladamente, um critério diagnóstico de TDAH.
Os principais sintomas utilizados no diagnóstico estão relacionados à desatenção, hiperatividade e impulsividade. Além disso, dificuldades sensoriais podem aparecer em diferentes condições e também em pessoas que não possuem um transtorno do neurodesenvolvimento.,
Por isso, não é adequado concluir que alguém tenha TDAH apenas porque se incomoda muito com determinados sons, roupas, luzes ou texturas.
TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial são a mesma coisa?
Não. É comum encontrar na internet o termo Transtorno do Processamento Sensorial (TPS) para descrever dificuldades importantes em organizar e responder às informações sensoriais.
Entretanto, existe debate clínico sobre a utilização do TPS como um diagnóstico independente. A American Academy of Pediatrics já destacou que dificuldades no processamento sensorial podem estar presentes em diferentes condições do desenvolvimento e recomenda que, diante desses sintomas, seja realizada uma avaliação ampla antes de considerá-los isoladamente.
Entre as condições que podem estar relacionadas a manifestações sensoriais estão:
TDAH;
Transtorno do Espectro Autista (TEA);
transtornos de ansiedade;
dificuldades do desenvolvimento;
entre outras condições.
Por isso, mais importante do que tentar encaixar a pessoa rapidamente em uma categoria é compreender como aquele padrão sensorial aparece e qual impacto ele provoca na rotina.
Sensibilidade sensorial no TDAH e no autismo é a mesma coisa?
Tanto pessoas com TDAH quanto pessoas com Transtorno do Espectro Autista podem apresentar alterações sensoriais. Isso não significa que as duas condições sejam iguais.
No TEA, hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais e interesses incomuns por aspectos sensoriais do ambiente podem fazer parte dos critérios diagnósticos quando aparecem dentro do conjunto de características do transtorno.
No TDAH, por outro lado, alterações sensoriais podem estar associadas ao quadro, mas não fazem parte dos critérios centrais de diagnóstico. Além disso, TDAH e autismo podem ocorrer juntos.
É justamente por existir essa sobreposição que analisar somente um comportamento — como não suportar barulhos — não é suficiente para diferenciar um quadro do outro.
O diagnóstico precisa considerar o desenvolvimento da pessoa como um todo.
Como saber se é sensibilidade sensorial ou apenas distração?
Às vezes, essa diferença não é tão óbvia. Imagine uma criança que não consegue fazer a atividade porque existem outras pessoas conversando na sala.
Ela pode estar se distraindo facilmente devido às dificuldades atencionais do TDAH.
Mas também pode estar percebendo os sons com tanta intensidade que manter a atenção na tarefa se torna muito mais difícil.
E os dois fenômenos podem acontecer ao mesmo tempo. Por isso, durante uma avaliação, o mais importante não é apenas identificar se determinado comportamento existe, mas compreender:
quando ele acontece;
desde quando está presente;
quais estímulos provocam a reação;
com qual intensidade;
em quais ambientes;
como a pessoa reage;
quanto isso interfere na vida diária;
quais outros sintomas estão presentes.
Esse contexto ajuda a construir uma compreensão mais precisa do funcionamento daquela pessoa.
Quando a sensibilidade sensorial merece atenção?
Nem todo incômodo com barulho ou preferência por determinada textura precisa ser tratado como um problema. Todos nós temos preferências sensoriais. Vale buscar uma avaliação quando essas reações começam a gerar prejuízos importantes.
Por exemplo, quando a pessoa:
evita lugares por causa dos estímulos;
apresenta crises frequentes em ambientes movimentados;
tem dificuldade de estudar ou trabalhar devido ao barulho;
restringe significativamente a alimentação por questões de textura;
sente desconforto intenso com roupas ou toque;
apresenta sofrimento ou exaustão após ambientes muito estimulantes;
percebe que essas dificuldades estão afetando relações, escola, trabalho ou qualidade de vida.
Nesses casos, investigar o que está acontecendo pode ser importante.
A sensibilidade sensorial confirma um diagnóstico de TDAH?
Não. Assim como acontece com vários sinais relacionados ao comportamento e ao desenvolvimento, um sintoma isolado não confirma TDAH.
O diagnóstico não é feito por um único teste, comportamento ou questionário.
É necessário avaliar a história da pessoa, a presença e persistência dos sintomas, o impacto em diferentes contextos e investigar outras condições que possam explicar ou coexistir com aquelas dificuldades.
A avaliação neuropsicológica pode contribuir para esse processo ao investigar diferentes aspectos do funcionamento cognitivo e comportamental e auxiliar na compreensão do perfil individual.
Em alguns casos, também pode ser necessária a participação de outros profissionais.
O mais importante é entender como aquela pessoa funciona
Dizer apenas que alguém é “sensível demais”, “fresco”, “distraído” ou “não sabe lidar com barulho” pode esconder uma dificuldade real.
Para algumas pessoas com TDAH, organizar todos os estímulos recebidos ao mesmo tempo pode exigir um esforço muito maior do que parece para quem está observando de fora.
Ao mesmo tempo, sensibilidade sensorial não deve ser usada como um atalho para concluir que alguém possui TDAH, autismo ou qualquer outro diagnóstico.
A pergunta mais útil não é apenas:
“Qual transtorno provoca isso?”
Mas também:
“Como essa pessoa percebe o ambiente e quanto isso interfere na vida dela?”
Compreender esse funcionamento permite pensar em estratégias mais adequadas para reduzir sobrecargas, melhorar a rotina e, quando necessário, direcionar uma investigação profissional.
Perguntas frequentes sobre TDAH e sensibilidade sensorial
Quem tem TDAH se incomoda mais com barulho?
Algumas pessoas com TDAH apresentam maior sensibilidade a sons ou dificuldade para filtrar ruídos irrelevantes, mas isso não acontece com todas as pessoas com o transtorno.
TDAH pode causar sensibilidade à luz?
Pessoas com TDAH podem relatar desconforto com luzes e ambientes visualmente muito estimulantes. Entretanto, esse sintoma isoladamente não indica TDAH e outras possíveis causas também devem ser consideradas.
Quem tem TDAH pode não gostar de toque?
Pode. Alterações na resposta a estímulos táteis são relatadas por algumas pessoas com TDAH. Porém, a aversão ao toque pode ter diferentes explicações e precisa ser compreendida dentro do contexto individual.
Sensibilidade sensorial significa autismo?
Não. Alterações sensoriais são frequentes no autismo, mas também podem aparecer no TDAH, em outras condições e mesmo em pessoas sem diagnóstico. A presença desse sinal isoladamente não permite diagnosticar TEA.
Sensibilidade a barulho é suficiente para diagnosticar TDAH?
Não. O diagnóstico de TDAH considera um conjunto persistente de sintomas de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade, o histórico de desenvolvimento e o prejuízo provocado em diferentes áreas da vida. Sensibilidade a sons não é suficiente para estabelecer o diagnóstico.



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